Bule Voador

Experimentos sobre a Mente

Autor: Joshua Knobe
Fonte: Scientific American Brasil
Editor:Tiago Angelo

Filósofos estão se dedicando não apenas a pensar incondicionalmente, mas também realizando experimentos científicos relacionados à natureza do livre-arbítrio.

Ao pensar na disciplina filosofia imediatamente nos vem à mente certo tipo de       imagem. Talvez você visualize uma pessoa sentada confortavelmente numa  poltrona, perdida em pensamentos, lendo atentamente alguns velhos livros. Talvez sua concepção da filosofia seja de uma disciplina que exige muito estudo, obscura por natureza e desconectada de uma realidade científica. De qualquer modo, você provavelmente não pensou em pesquisadores indo a campo para realizar experimentos.

Ainda que possa parecer extravagante, um grupo de jovens filósofos está começando a fazer exatamente isso. Esses “filósofos experimentais” argumentam que as respostas sobre as mais profundas questões da filosofia podem ser obtidas se investigarmos a forma como as pessoas pensam e sentem. Para avançar nesses estudos os pesquisadores utilizam todos os métodos da ciência cognitiva contemporânea; realizam experimentos, unem-se a psicólogos e publicam em periódicos até agora reservados somente a cientistas. O resultado tem sido revolucionário. Embora o movimento tenha começado há apenas alguns anos, já foram publicadas centenas de artigos, e em fluxo constante de resultados surpreendentes tem sido produzido, com opiniões enfáticas de todos os lados.

De início, isso tudo pode parecer muito estranho – como se os filósofos tivessem deixado de lado a verdadeira filosofia e mudado completamente para qualquer outra atividade. Mas talvez essa abordagem não seja realmente tão estranha. Normalmente, num programa de pesquisa, os cientistas trabalham com certos instrumentos (telescópio, microscópio etc.). Quase sempre eles não se preocupam muito com os próprios instrumentos; eles simplesmente os utilizam para chegar a alguma realidade com existência independente. De vez em quando, porém, os pesquisadores parecem confusos ou desconcertados com os resultados revelados pelos instrumentos. A informação pode parecer implausível, contrapor-se a teorias já estabelecidas, ou ser intrinsecamente contraditória. Nesses casos, ela pode ser útil para rejeitar uma realidade que está sendo estudada e para analisar em detalhes o próprio instrumento. Seria até normal pensar que para resolver questões de astronomia, tivéssemos de começar por um estudo científico sobre telescópios.

Filósofos não usam mais telescópios os microscópios. Baseamo-nos quase sempre em um só instrumento: a mente humana, que produz as ideias que conduzem nossa profissão. Apesar disso, aplicamos os mesmos princípios básicos da pesquisa científica. Geralmente não nos preocupamos muito em explorar nossa própria mente; apenas a usamos para chegar uma realidade independente. Mas, às vezes, essa abordagem falha. Com frequência nossa mente parece nos puxar em duas direções opostas, como se duas vozes dentro de nós fornecessem respostas opostas para a mesma questão. Em situações como essa pode ser útil explorar a própria mente e olhar para as origens de nossas intuições filosóficas – e dos outros também.

É aí que entra a filosofia experimental. A ideia central é que se compreendermos melhor a psicologia que envolve as intuições filosóficas poderemos perceber melhor quais intuições são mais confiáveis e quais podem ser descartadas.

Esperamos que esse trabalho ajude-nos a compreender melhor as crenças das pessoas sobre as grandes questões filosóficas: Como começam a acreditar no livre arbítrio? Os resultados podem ter implicações práticas em jurisprudência, ética e outros campos.

Livre-arbítrio no estilo experimental

Imagine que você testemunhou um assassinato. Enquanto observa a cena à sua frente, pode inicialmente parecer óbvio que o assassino é moralmente responsável pelo crime que cometeu e que merece ser punido. Agora suponha que você faça uma pausa para reavaliar o fato filosoficamente. A ação do assassino foi provavelmente provocada por estados mentais anteriores, de modo que sua atitude pode ter sido simplesmente o último passo de uma sucessão de eventos. No entanto, se seu comportamento foi moldado por uma sequência de eventos, será que ele realmente poderá sempre ser considerado moralmente responsável pelo que fez? Alguns filósofos acreditam que sim, e o debate entre essas duas posições prossegue num incessante vai e vem. É o problema do livre-arbítrio.

Shaun Nichols, filósofo experimenta da University Of Arizona e eu acreditamos que o conflito que envolve esse problema deve ter suas raízes num cabo de guerra entre duas formas de cognição humana. Talvez nossa capacidade de reflexão teórica abstrata nos leve a pensar de uma forma, enquanto que nossas respostas emocionais mais imediatas nos conduzam na direção oposta. Um impulso nos diz: “Bem, se você pensar racionalmente, esse comportamento é apenas um elo de uma complexa cadeia causal e, portanto, ele pode nunca ser de fato livre ou responsável”. Mas então outro impulso entra em cena: “Ei, espere! Esse cara é um assassino! Ele precisa ser responsabilizado pelo que fez”.

Quando conduzimos um experimento, Nichols e eu descrevemos aos participantes um universo fictício (universo A) no qual tudo o que cada um faz é determinado por uma cadeia causal cujas origens remontam ao passado.

Cada participantes recebe aleatoriamente instruções sobre uma de duas situações e deve responder uma questão cujo objetivo é estimular a reflexão teórica abstrata: É possível que as pessoas sejam completa e moralmente responsáveis por seus atos no universo A?

Aos participantes da outra situação é relatada uma história absolutamente concreta e até melodramática inventada para evocar uma resposta mais emocional.

No universo A
, um homem chamado Bill sente atração por sua secretária e decide que a única forma de ficar com ela é matando sua esposa e seus três filhos. Ele sabe que é impossível escapar de sua casa em caso de incêndio. Antes de partir numa viagem de negócios ele monta um dispositivo que incendeia a casa e mata a família. Bill é moralmente responsável pela morte da esposa e dos filhos?

Os participantes que receberam a questão teórica abstrata tendiam a dizer não, enquanto os outros que receberam a segunda questão, mais concreta, tendiam a ter uma visão oposta dos fatos afirmando que Bill era, sim, responsável por seus atos. Em outras palavras, as pessoas tendem a considerar na forma abstrata que ninguém pode ser moralmente responsável num universo determinístico, mas quando deparam com uma história sobre pessoas reais envolvidas numa ação covarde, estão predispostas a julgá-lo moralmente responsável, independentemente do tipo de universo em que vive.

Embora esse primeiro estudo tenha sido relativamente pequeno realizado com algumas dezenas de alunos universitários, nos anos seguintes surgiram inúmeras tentativas de explorar esses fenômenos com mais rigor. Um dos experimentos empregou uma amostra muito maior (mais de mil participantes); outro procurou analisar intuições de casos abstratos em diferentes culturas (índia, Hong Kong, Colômbia, e Estados Unidos). Em todos os casos as mesmas descobertas originais continuaram a aparecer. Nesse momento, parecia que tínhamos conseguido captar algum tipo de efeito genuíno, embora outras questões ainda permanecessem: Por que esse efeito estava surgindo? O Efeito refletia realmente uma diferença entre pensamento abstrato e pensamento concreto? Para aprofundar mais nessa questão, precisamos de estudos que utilizem métodos um pouco diferentes.

Um dos testes mais notáveis e elegantes foi conduzido pela filósofa experimental Christine Weigel, da Utah Valley University. No experimento, foi solicitado aos participantes que imaginassem estar assistindo uma palestra sobre o livre-arbítrio. Os participantes foram instruídos a imaginar que a palestra explicava o problema de forma geral e terminava com o exemplo descrito anteriormente: o homem no universo determinístico que mata a esposa e os filhos. Mais Weigel introduziu um detalhe sutil. Foi solicitado a alguns participantes que imaginasse que a palestra ocorreria “dentro de alguns anos”, enquanto para outros foi dito que a palestra ocorreria “dentro de alguns dias”.

Aparentemente, esse detalhe pode não ter muito a ver com o livre-arbítrio, mas tem tudo a ver com cognição humana. Uma série completa de estudos experimentais mostrou que imaginar um evento numa época mais remota leva as pessoas a empregar um tipo diferente de processo cognitivo: mais abstrato, teórico e de nível mental mais elaborado. Em outras palavras, uma história sobre uma época mais remota pode acionar um tipo de processo mais reflexivo (“bem, se você pensar nele racionalmente…”) e a história sobre uma época mais recente, acionar intuições mais concretas (“Ei, espere! Esse cara é um assassino”). Weigel tinha certeza de que o detalhe estava mudando a intuição das pessoas. Os participantes instruídos a imaginar um acontecimento temporalmente distante acabaram se mostrando menos propensos a afirmar que os seres humanos poderiam ser moralmente responsáveis, mesmo num universo determinístico.

Parece cada vez mais plausível pensar que o senso de perplexidade e os conflitos internos relacionados ao livre-arbítrio de fato decorrem de uma tensão entre os julgamentos teóricos mais abstratos e as respostas emocionais mais concretas das pessoas. Além disso, a situação em que se encontram num dado momento influi nas posturas morais que adotam.

É claro que o simples fato de essa hipótese ter sido confirmada em alguns estudos iniciais não prova que seja verdadeira. O filósofo experimenta Eddy Nahmias da Georgia State University propôs uma hipótese concorrente que não envolve qualquer conflito entre razão e emoção, além de existir um consenso geral de que as evidências disponíveis nesses experimentos não são suficientes para responder todas as grandes questões. Mas o que temos até agora é, definitivamente, um bom começo. Embora muito ainda precise ser feito, já temos prelúdio de um programa de pesquisa experimental sobre as raízes psicológicas que permitem entender melhor como as pessoas percebem o livre-arbítrio.

A moralidade é relativa?
Venho me concentrando há muito tempo em questões que podem parecer um tanto obscuras, mas a filosofia experimental é mais uma ferramenta que poderá ajudar a esclarecer as dúvidas no cerne de controvérsias contemporâneas sobre moralidade.
Vamos supor que Sven e Xiex sejam seres de duas culturas distintas. Para Sven “é moralmente errado bater nos outros”, enquanto para Xiex “é moralmente correto bater nos outros”. Estamos diante de um impasse: se Sven e Xiex tem opiniões opostas, um deles deve estar errado. Ou não há uma resposta certa? Cada um deles pode estar certo relativamente ao conjunto de valores de sua própria cultura.

De todas as questões teóricas complexas discutidas pelos filósofos, esta tem sido a mais polarizadora dentro da cultura ocidental como um todo. Radicais acadêmicos de correntes diversas geralmente sugerem que não existe uma verdade moral única e que moralidade é sempre relativa; pensadores mais conservadores geralmente insistem na existência de verdades morais objetivas. O papa Bento XVI envolveu-se no debate ao declarar que o relativismo moral leva “à confusão intelectual, à degradação dos padrões, à perda do autorrespeito e até ao desespero”.

Numa tentativa de chegar às raízes psicológicas dessa controvérsia, o psicólogo Edward T. Cokely da Michigan Technological University e o filósofo Adam Feltz da Schreiner University, em Kerville, Texas, relataram aos participantes do estudo uma história sobre pessoas que sustentam pontos de vista antagônicos sobre uma questão moral. Depois, os pesquisadores perguntaram aos participantes se um contestante tinha de estar errado (resposta antirrelativista) ou se era impossível haver uma única posição correta (resposta relativista). O estudo de Cokely Feltz também incluía um artifício.

Os pesquisadores forneceram aos participantes um parâmetro para medir um traço de personalidade, “estar aberto às experiências”, e conseguiram determinar quais participantes eram mais predispostos a novas experiências e quais eram mais inflexíveis. Os resultados mostraram uma correlação significativa: quanto mais aberto a experiências, maior a probabilidade de o participante endossar uma resposta relativista.

Esses estudos sugerem uma hipótese sobre as raízes do relativismo. Talvez a atração que as pessoas sentem pelo relativismo moral esteja relacionada a uma forma de abertura. Quando confrontadas com outras perspectivas e outros estilos de vida possíveis, elas se sentem atraídas pelo relativismo até o ponto de abrirem a essas outras possibilidades e penetrarem nelas imaginativamente.

Num teste inovador dessa hipótese, os psicólogos Geoffrey Goodwin da UniversiTy of Pennsylvania e John Darley da Princeton University mediram como os participantes pensam oferecendo a cada um deles um quebra-cabeça lógico envolvendo uma configuração de blocos numa certa disposição. Embora de imediato o problema pudesse parecer simples, havia na verdade um artifício: só era possível chegar à resposta certa se o problema fosse visto sob múltiplas perspectivas. A questão primordial da pesquisa era estabelecer uma relação entre a capacidade das pessoas de resolver o problema e suas intuições sobre relativismo. Surpreendentemente os pesquisadores encontraram uma correlação importante. Os que resolveram o problema apresentavam maior probabilidade de fornecer respostas relativistas.

Devemos queimar a poltrona?
Suponhamos agora, a título de ilustração que a filosofia experimental continue a avançar. Imagine que todas as questões empíricas sejam resolvidas e que finalmente cheguemos a uma compreensão precisa dos processos cognitivos em que se baseiam os pontos de vista filosóficos das pessoas. Mesmo que isso aconteça, talvez não tenhamos conseguido atacar completamente a questão inicial que permanece no âmago do debate filosófico: se esses pontos de vista estão certos ou errados. Alguém poderia objetar dizendo que essa última não é uma questão que pode ser respondida com experimentos.

Considerando em si, esse ponto é justo e razoável, e qualquer filósofo deveria estar feliz em aceita-lo. Mas seria um grande erro trata-lo como alguma objeção devastadora capaz de comprometer todo projeto da filosofia experimental. Ninguém está sugerindo que filósofos devam abandonar outras formas de pensamento e passar o tempo todo em campo realizando experimentos; ao contrário, o trabalho experimental deve fazer parte de um questionamento mais amplo. A filosofia experimental está apenas colocando uma nova ferramenta na caixa que os filósofos já utilizam.

Enquanto estamos sentados na poltrona combatendo as tensões entre nossas diferente crenças, pode ser útil e eventualmente indispensável compreender melhor os processos cognitivos que dão origem a essas crenças.

* Joshua Knobe é professor-associado do departamento de filosofia da Yale University e um dos fundadores da filosofia experimental. É conhecido por ter concebido o efeito Knobe, no qual julgamentos morais exercem um impacto surpreendente na forma como as pessoas compreendem o mundo.

Tiago Angelo