Bule Voador

Seguindo ordens: Nazismo e lavagem cerebral

Autor: William Weber Cecconello
Editor: Tiago Angelo
Texto também publicado no blog Sociedade Primata

 

 

Como eu imaginava que ocorria a lavagem cerebral

Embora eu não goste deste termo, sempre achei interessante o que lia sobre ‘lavagem cerebral’, e por muito tempo achei que era algo oriundo do capeta que usava de recursos de lobotomia para mudar o modo das pessoas pensarem. Somente depois de entender o nazismo, fui perceber que isso não é algo que necessite conhecimento neurológico para ser feito, apenas é necessário saber aproveitar-se da plasticidade neuronal dos outros.

Como ocorre a lavagem cerebral ( na foto o Jim Jones, responsável pelo massacre de Jonestown)

Nunca fui muito interessado na segunda guerra mundial. Sempre soube o mesmo que a maioria: Hitler era um cara mal, que tentou fazer uma guerra e perdeu. Vez ou outra me deparava com um documentário, mas pareciam muito repetitivos. Mas recentemente mudei minha visão sobre o assunto.

Vendo o filme o Julgamento de Nuremberg (2000), pode se perceber como funcionou o nazismo. Os integrantes no partido nazista em geral não tinham (ou aparentavam ter) personalidade antissocial (pessoas com uma personalidade que consiste em falta de empatia) ou tendências ao sadismo (prazer em fazer outros sofrerem). O que se nota (através de filmes, documentários e afins) é que eles apenas sofreram uma espécie de lavagem cerebral, não diferente de outras seitas (inclusive religiosas). O cenário para o desenvolvimento do nazismo não poderia ser mais ‘fértil’ para esse tipo de ideia: um país cheio de dividas deixadas pela ultima grande guerra, a maioria da população estava na miséria e passando fome. Eis que surge um líder, alguém disposto a erguer a nação que deveria ter sido soberana desde os tempos mais primórdios. A população miserável, não tinha mais em quê acreditar, e uma oportunidade como essa pareceu ser impossível de dispensar. ‘Quando se está sozinho no fundo do poço a mão que vier a gente agarra.’ Hitler usou-se de um artifício para justificar a guerra, os que não pertenciam ao grupo, não eram igualmente humanos, seriam uma outra raça. Ao apelar para a diferenciação entre o normal (ou ideal) e o diferente, encontrou um meio de incentivar a matança. Após absorver toda a ideia de Hitler, o integrante do movimento percebia judeus e rivais como não sendo da raça ariana (a raça pura, que supostamente iria compor o grupo mais forte). Os nazistas decidiram então criar o que chamaram de ‘solução final’- que seria exterminar todos os judeus. A ideia já estava tão arraigada, que não pareceu algo abominável (qualquer semelhança entre religiosidade não secularista e homofobia não é mera coincidência).

Como falado várias vezes neste site, é inata a vontade humana de se sentir parte de algo. O ser humano foi moldado à luz da evolução para viver em grupos, e sentimo-nos bem ao fazer parte de um grupo. Porém como infelizmente a evolução não se dá segundo a ideia de Lamarck, não evoluímos por que seria mais útil evoluirmos, e é por isso que temos tantas desadaptações. O sentir-se parte de algo libera uma espécie de recompensa no cérebro, e buscamos essa recompensa a ponto de às vezes ‘enxergarmos através dos olhos do grupo’, para continuar fazendo parte do grupo e recebendo essa recompensa. Isso não é necessariamente ruim, através disso podemos entender por que temos amigos que não pensam exatamente igual a nós. Ex: Sou ateu, mas a maioria dos meus amigos acredita em Deus, quando o assunto é religião eu acabo cuidando o que vou falar, pois não acho que valha a pena brigar por algo que não esteja trazendo danos a nenhum indivíduo ( meus amigos são crentes mas acreditam no secularismo). Meus amigos também não criticam a minha visão. O fato de termos outras coisas em comum me faz querer continuar sendo amigo deles e essa diferença é deixada de lado.

Mas querer sentir-se parte de um grupo não faz com que você sofra uma lavagem cerebral, a influencia do grupo se dá de forma mais elaborada nesses casos. Fomos agraciados pela evolução: somos dotados de plasticidade cerebral. A plasticidade cerebral é a capacidade que o cérebro tem de se remodelar em função das experiências do sujeito, reformulando as suas conexões em função das necessidades e dos fatores do meio ambiente. É graças a plasticidade cerebral que você é capaz de aprender coisas novas e modificar seu próprio comportamento por exemplo. Na psicologia cognitiva isso se traduz assim: podemos organizar o pensamento em forma de esquemas, moldando-se ao ambiente em que estamos. Após certo tempo, ou certa pressão do ambiente, determinado esquema de pensamento torna-se mais reforçado através de ligações neuronais constantes e/ou mais carregadas de emoções. Resumindo : após certo tempo sobre determinada influencia, um padrão de pensamento torna-se normal.

Seguindo esse raciocínio, torna-se mais claro como surgem as chamadas ‘lavagens cerebrais’. Lavagem cerebral ocorre através da reforma do pensamento através da influencia social. A influencia social se dá de 3 formas:

1-Educação: está no topo da influência social e tenta afetar uma mudança nas crenças da pessoa, induzindo a ações do tipo “Faça porque você sabe que é a coisa certa a ser feita”. É a forma mais simples da lavagem cerebral, pois não requer um conhecimento prévio sobre o assunto, é o tipo de lavagem cerebral que molda a forma como se percebe a situação. Ex: Ser educado desde cedo que judeus não são iguais a você.

2-Persuasão: é o contrário da submissão, pretende mudar a atitude e induz ao “Faça porque isso vai fazer você se sentir bem/feliz/saudável/bem-sucedido”. A pessoa é induzida a acreditar, de acordo com experiências já vividas. Um exemplo seria a questão do dízimo em igrejas evangélicas. A pessoa já teve uma educação (crer em Deus), e é persuadida a doar para agradar a este. Por não serem submetidos a esse tipo de persuasão, muitos católicos criticam essa prática evangélica.

3-Submissão: produz mudanças no comportamento da pessoa não se preocupando com suas atitudes ou crenças. Essa abordagem induz ao “Apenas Faça”. Determinam que tal coisa é certa/errada, possível/impossível, e é em geral produzido por alguém que já é autoridade (ex: pai, mãe, professor). É o clássico ‘não por que não’, ou ‘sim por que sim’ – para chegar nesse ponto, a pessoa geralmente já passou pelas outras duas fases.


A lavagem combina as três abordagens para causar mudanças no modo de pensar de alguém sem que a pessoa consinta. A influencia social ocorre a cada momento, mas a lavagem cerebral une essas três formas de influencia com um propósito.

De uma forma mais popular pode se dizer que : as pessoas que são submetidas a lavagem cerebral em geral não são más, mas as que a fazem em geral são. Boa parte dos nazistas não tinham uma psicopatologia (antes de iniciar o nazismo) , mas Hitler certamente possuía, assim como a maioria dos lideres de cultos de lavagem cerebral possuem algum, vide exemplos clássicos: Charles Manson, Marshall Applewhite e Jim Jones.

Para perceber melhor como funciona essa lavagem cerebral, recomendo os filmes Julgamento de Nuremberg (2000)- Brian Cox está excelente no papel de Hermann Goering. O filme Helter Skelter que mostra o movimento liderado por Charles Manson e o episódio Seitas do mal, da série de documentário Índice da maldade do Discovery Channel. A seguir um trecho do filme o julgamento de nuremberg que relata bem o que foi dito aqui:

 

Tiago Angelo