Bule Voador

Depois da escola, Satã!

A instituição do Estado Laico é uma das grandes conquistas da nossa civilização. É a partir desse fundamento que, em tese, garante-se que nenhuma religião possa se beneficiar ou, até mesmo, se apoderar das instituições governamentais para oprimir ou obter direitos em detrimento das demais. No entanto, percebe-se que essa conquista foi bem sucedida somente até certo ponto.

No Brasil, o aparelhamento das instituições públicas por políticos que usam preceitos religiosos para alterar, criar e instituir leis está desvirtuando um dos pilares da nossa constituição, impondo visões de mundo bastante retrógradas, anticientíficas e que, não raro, ferem os direitos humanos. O maior expoente desse tipo de política é a Bancada Evangélica, que usa temas polêmicos para se manter na mídia.

Aqui, contudo, o cerne da questão não é a existência desta ou daquela bancada religiosa, fato que, por si só, já é contraditório dentro do que se espera de um Estado dito laico, mas a falta de consciência a respeito de como este funciona: quando um governo beneficia integrantes de uma determinada religião, abre-se um precedente para que os das demais reclamem os mesmos direitos. Além disso, tal promiscuidade pode abrir espaço para que o governo influencie decisões internas de instituições religiosas.

Um bom exemplo, e que poder ocorrer no Brasil em outros contextos, é o impasse que surgiu em torno de atividades extracurriculares em escolas públicas infantis dos Estados Unidos. Um grupo intitulado Children Evangelism Fellowship (Sociedade de Evangelismo Infantil) está promovendo atividades extracurriculares de estudos bíblicos em escolas públicas invocando o direito à liberdade religiosa. Em resposta às tentativas de organizações fundamentalistas cristãs de tornarem as escolas públicas americanas em campos de doutrinação religiosa e invocando o mesmo direito, a organização The Satanic Temple (O Templo Satânico) propôs a adoção de uma atividade extracurricular chamada “Clubes de Satã”.

Ao contrário do que o nome sugere, o Templo Satânico não é uma seita macabra ou uma banda de Death Metal. É uma organização ateísta, que usa Satã como metáfora para mostrar que, da mesma forma que o tinhoso foi expulso do céu por desafiar a autoridade divina, o grupo sofre situação semelhante ao desafiar a autoridade intolerante na política. Sediada em Nova Iorque, possui como missão, entre outras coisas, encorajar a benevolência e a empatia entre todas as pessoas, rejeitar autoridades tirânicas, defender o bom senso prático e justiça e ser dirigido pela consciência humana para realizar buscas nobres guiadas pela vontade individual. O programa do curso teria aulas de ciências, pensamento crítico, artes e história indígena para crianças do ensino primário.

O Templo Satânico tem sido alvo de muitas críticas e até ameças de morte (amor cristão?). Uma das críticas é de que não se trata de uma organização séria, mas uma sátira e que a sua única razão de existir é perturbar. Por outro lado, alguns pais expressaram entusiasmo e estão querendo matricular os filhos ou se voluntariarem a dar aulas.

Seja sátira ou não, o Templo Satânico mostrou não só como usar a mesma lógica dos grupos fundamentalistas para que provem do próprio veneno, mas também como é equivocado e perigoso usar o direito à liberdade religiosa como pretexto para fazer proselitismo dentro de instituições públicas de um país laico, uma vez que é impraticável atender às demandas de todos os credos. Dessa forma, a neutralidade estatal é o único caminho para a manutenção do pluralismo e do respeito mútuo entre as religiões.

Fontes:
The Satanic Temple
BBC Brasil

Diogo Albuquerque
Geofísico de formação e Sismólogo por teimosia (ou por um profundo desejo de morrer na miséria). Mas prefere mesmo é jogar sinuca enquanto debate temas polêmicos.