Bule Voador

A Garota que Derrotou o ISIS

Um livro fabuloso, mas aflitivo e angustiante

(resenha de Richard Dawkins)

Este livro é a memória escrita (por uma escritora-fantasma) de uma jovem mulher quase sobre-humanamente valente e heroica, capturada e vendida como escrava sexual pelo ISIS. Farida Khalaf (não é o seu nome verdadeiro, por razões óbvias) é uma adolescente Yazidi da região curda do norte do Iraque. Estudante altamente promissora de matemática, ela sonhava em se tornar uma professora e ganhou uma cobiçada bolsa para a Alemanha. Mas seus sonhos e sua feliz vida familiar foram aniquiladas quando a escória jihadista invadiu sua aldeia natal. Os homens da aldeia foram alinhados e fuzilados pelo crime de não serem muçulmanos (os Yazidis são monoteístas, mas o seu Deus é evidentemente distinto o suficiente de Alá para justificar o assassinato) e as mulheres foram levadas e vendidas como escravas: escravas sexuais na caso das mulheres jovens e crianças, as virgens sendo especialmente valorizadas. No mercado de escravos, os clientes vêm para inspecionar a mercadoria antes de pechinchar sobre o preço, à plena vista dos próprios “bens”. Um potencial comprador pôs o dedo na boca de Farida para verificar seus dentes, como alguém faria ao comprar um cavalo. Ela o mordeu, e eu lamento que ela não tenha conseguido arrancá-lo fora. Farida e sua querida amiga Evin deliberadamente tentaram se tornar tão pouco atraentes quanto possível, na esperança de adiar o momento da compra, embora as condições em que elas eram mantidas, enquanto estavam presas e aguardando a venda, estivessem além do terrível.

Farida foi comprada, vendida a seguir, comprada novamente, estuprada repetidas vezes por seus “donos”, deixada a passar fome e espancada a ponto de ficar gravemente ferida. Somos piedosamente poupados dos detalhes dos estupros, mas uma cena horrível se firma na memória:

“Eu esperei tempo suficiente”, disse ele. “Deus é minha testemunha de que foi assim. Eu tenho um direito a você.”

Sua longa “espera” tinha sido enquanto Farida estava incapacitada pela própria tentativa de suicídio, depois que ele a comprou, cortando seus pulsos com uma garrafa quebrada, a única arma que ela pôde obter. Ela mal havia se recuperado da maciça perda de sangue antes desta cena de estupro.

Ele desenrolou seu tapete e ficou pronto para se ajoelhar e rezar. Ouvi de meus amigos que aqueles particularmente religiosos comumente fazem isso antes de atacar uma mulher, celebrando assim o seu estupro como uma forma de adoração.

Farida tentou desesperadamente saltar pela janela enquanto ele estava distraído em oração, mas ele a pegou.

Tentei morder o seu braço. Mas nada ajudou. Não pude evitar que Amjed fizesse o que tinha planejado. Quando ele finalmente saiu de mim, eu me enrolei em posição fetal e fiquei na cama, chorando.

Naquela noite, Farida teve um ataque epiléptico.

Evin foi comprada também, e as duas amigas se viram apenas intermitentemente depois disso, o que aumentou a aflição de ambas já que elas encontravam grande conforto uma na outra, e o seu companheirismo e apoio mútuo na indizível adversidade é um dos aspectos mais tocantes do livro. Farida fingiu não falar árabe, e Evin posou como a irmã que precisava ficar com ela para lhe traduzir em curdo.

Com cansativa regularidade os “donos” das garotas iam explicar que sua conduta era santificada pelo Corão: mulheres infiéis capturadas em guerra são sua propriedade para você fazer o que quiser com elas. Obviamente todo mundo sabe disso, basta perguntar ao “sábio” mais próximo! E claro, homens infiéis devem ser mortos, a menos que se convertam ao islamismo. Deve ser formidável ter tal confiança em sua religião que você ache necessário matar pessoas que não a seguem. Os captores fizeram repetidas tentativas de converter as moças para o Islã, e as fizeram aprender o Corão de cor, sob pena de serem açoitadas se falhassem.

Depois de várias tentativas de fuga corajosas, mas fracassadas, Farida e Evin eventualmente conduziram um grupo de seis garotas em uma perigosa escapada. Evin tinha um tio vivendo na Alemanha, a quem ela tinha conseguido telefonar com um celular que elas roubaram de seus guardas. Ele fez contato com um subversivo à la Scarlet Pimpernel [famoso mestre do disfarce e das fugas da literatura britânica] que, por um preço, iria contrabandeá-las rumo à segurança — se ao menos elas conseguissem escapar. Em uma apavorante façanha de ousadia, elas conseguiram. A parte da escapada incluía Besma, de doze anos (doze não é demasiado jovem para ser estuprada, a sagrada escritura sanciona). A marcha penosa e épica através do território hostil dominado pelo ISIS deixa o leitor com o coração na boca, com o perigo de recaptura estando sempre presente e o medo do que aconteceria a elas se fossem recapturadas sendo inafastável. Sua fuga foi digna de um thriller de Colditz, e Farida e Evin se cobriram de glória, guiando as meninas mais jovens com segurança através do caminho, inclusive a pequena Besma, que estava tão mal pela fome que as demais temiam por sua vida. A odisseia terminou com uma travessia de barco pelo rio Eufrates, onde o tio de Farida, e outros parentes das garotas, haviam combinado de encontrá-las. Posteriormente Farida, em lágrimas, reencontrou sua mãe, que também tinha conseguido escapar da escravidão, mas que estava quase irreconhecível, tão cruel tinha sido seu tratamento. O irmão mais novo de Farida foi o único sobrevivente quando os homens da aldeia foram mortos por não serem muçulmanos. Ele foi ferido, mas fingiu estar morto e assim escapou.

Mesmo após a fuga, uma sombra pairava sobre Farida. À luz da cultura em que ela foi criada, o fato de que havia sido estuprada era visto como uma desonra para sua família, quase como se fosse culpa dela. Apenas uma vez foi dito em voz alta, mas ela e Evin, e seus companheiros, podiam sentir isso. Ela finalmente realizou o desejo de ir para a Alemanha, onde está agora. Ela está progredindo bem no aprendizado do alemão, e reacendeu suas esperanças de se tornar professora de matemática. Todo o crédito para a Alemanha. Será que a Grã-Bretanha a teria aceitado? A Grã-Bretanha do Brexit? A vergonhosa Grã-Bretanha de Farage? Eu odeio dizer isso, mas acho que sei a resposta.

Que jovem maravilhosamente valente, que exemplo radiante para todos nós, pirralhos mimados preocupados com nossos problemas de primeiro mundo. Leia o livro, embora eu deva alertá-lo de que ele é altamente angustiante. Mas também edificante. Para nunca ser esquecido.


girlwhobeatISIS


Autor: Richard Dawkins

Original: https://richarddawkins.net/2016/08/an-amazing-but-harrowing-and-distressing-book/

Tradução: Lauro Edison

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Lauro Edison
Autodidata interessado em Filosofia, sobretudo da mente e metafísica, também moral (esta última como crítico, na linha de Richard Joyce em "The Myth of Morality"). Observando com cinismo a romântica paisagem ideológica.