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Como Combater Extremismo com Ateísmo

O mundo não está acabando, mas encaramos um tremendo problema vindo de gente que acredita que ele está. As crenças de muitos radicias se tornaram cada vez mais apocalípticas pela década passada. Eles estão convencidos de que o fim do mundo é iminente e que têm um papel especial em ocasioná-lo. Quer você esteja ou não interessado no apocalipse, os terroristas que creem que ele está a caminho estão interessados em você.

Soluções são difíceis de conseguir. Mas há um modo de fazer face ao extremismo que é potencialmente tão eficaz quanto é impopular. É uma estratégia social e intelectual que visa a minar as crenças religiosas que motivam os jihadistas — e um dos conjuntos de ideias mais controversos a emergir no Ocidente no último quarto de século: o Novo Ateísmo.

O Novo Ateísmo emergiu em resposta direta aos ataques terroristas de 11/9 executado pela al-Qaeda, que demonstraram que agir com base em certas crenças religiosas pode levar à catástrofe. O movimento ofereceu uma perspectiva até então não bem-vinda: Que toda religião tem consequências negativas, e que até os moderados religiosos contribuem ao problema porque, por afirmarem que a fé é uma razão legítima para manterem-se crenças, facilitam os extremistas religiosos.

Ao fazerem este caso, os Novos Ateus ilustremente quebraram um tabu de longa data contra criticar a fé de uma pessoa. Mas eles quebraram também um segundo tabu. Alguns Novos Ateus na esquerda — incluindo Sam Harris, Jerry Coyne, Richard Dawkins e Michael Shermer — uniram suas vozes com muitos na direita por dizerem que há perigos singulares associados com a jihad, tais como o martírio. O Novos Ateus argumentaram que concentrar-se no extremismo religioso genérico é uma cortina de fumaça, que os conteúdos específicos das doutrinas religiosas delimitam maneiras como o extremismo ocorre e assim algumas doutrinas impõem ameaças maiores do que outras.

O Novo Ateísmo já teve sucesso em modificar a paisagem cultural da civilização ocidental, tornando muito mais aceitável ser ateu abertamente, dando aos ateus visibilidade pública sem precedentes, reforçando as fronteiras legais do secularismo e mudando a natureza do discurso público acerca da fé, da crença, de Deus e da religião.

Ideias neoateístas como estas se infiltraram em sociedades muçulmanas fechadas tradicionais, dando a essas populações uma oportunidade de questionar suas crenças. Em países muçulmanos, os escritos dos Novos Ateus — que são ilegais — ajudaram a semear dúvida e dissidência. A tradução árabe de The God Delusion de Richard Dawkins, por exemplo, foi baixada dez milhões de vezes, e fotografias de pessoas segurando-a ao olharem Meca de alto são extraordinariamente comuns dadas as penas draconianas por fazê-lo — variando de dez anos de prisão à morte.

O Novo Ateísmo pode ter permeado o mundo islâmico, mas não encontrou raízes profundas. E sua abordagem atual não é bem adequada para penetrar mais ainda nas sociedades muçulmanas. O discurso condescendente dos Novos Ateus — chamando pessoas religiosas de delirantes, por exemplo — não é uma estratégia transcultural eficaz para gerar mudança.

O próximo capítulo no Novo Ateísmo exigirá uma letra mais nuançada, se não mais gentil. A escritora holando-americana natural da Somália Ayaan Hirsi Ali, por exemplo, argumentou com eloquência que o Islã precisa de uma reforma interna antes que o pluralismo intelectual e religioso possa se tornar comum no mundo islâmico. O ateísmo, observa Ali, é um passo lógico que vem após valores iluministas como racionalismo e tolerância, e as liberdades de uma sociedade livre, aberta e laica, estiverem aplicados.

Para este fim, os Novos Ateus começaram a estender a mão para colaborarem com muçulmanos moderados e, possivelmente de modo mais importante, ex-muçulmanos. Muitos desses ex-muçulmanos se tornaram Novos Ateus e retornaram às suas comunidades para advogar pela reforma. Por exemplo, Maajid Nawaz (um ex-membro de um grupo islamista radical que se tornou contra-extremista) e Ali Rizvi (um “muçulmano ateu” por autoidentificação) têm estado envolvidos intimamente numa reforma islâmica em curso ajudando a erodir leis de blasfêmia.

O caminho adiante requer que sejamos capazes de falar honestamente sobre a religião, e o Novo Ateísmo foi o esforço cultural mais eficaz para facilitar esta conversa. Seus empenhos para o progresso, no entanto, devem reconhecer a humanidade na religião enquanto mantêm um diálogo franco acerca de conflitos profundamente arraigados entre a razão e a fé. Um Novo Ateísmo maduro é necessário hoje mais do que nunca anteriormente para oferecer uma alternativa singular a conflitos de fé irreconciliáveis, dos quais alguns desejam acabar com o mundo.


Peter Boghossian é professor de filosofia na Portland State University e autor de A Manual for Creating Atheists.

James Lindsay é autor de Everybody is Wrong about God e mantém o blog God Doesn´t; We Do.

Phil Torres é escritor contribuidor para o Future of Life Institute e diretor fundador do X-Risks Institute.


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