Bule Voador

Entrevista da Revista Humanist com Gene Roddenberry

A edição de Março/Abril de 1991 da revista Humanist apresentou uma entrevista exclusiva e profunda (26 páginas!) entre o editor à época David Alexander e o humanista e criador de Star Trek Gene Roddenberry. Para celebrar o quinquagésimo aniversário de estreia da Série Original (o primeiro episódio de Star Trek foi transmitido pela NBC em 08 de setembro de 1966), trazemos vários trechos daquela entrevista.

The Humanist: Star Trek – A Nova Geração é provavelmente o programa de entretenimento mais humanista que é transmitido na televisão – ou talvez, que jamais tenha sido transmitido na televisão. Uma das mensagens de fundo de ambas as séries é que os seres humanos podem, com pensamento crítico, resolver os problemas que estão enfrentando sem nenhuma ajuda sobrenatural. Eu fiquei particularmente impressionado com o episódio “Who Watches the Watchers“. Um grupo de campo antropologista da Federação observa uma cultura medieval em um planeta que, centenas de anos atrás, abandonou todas as crenças sobrenaturais. Capitão Picard destaca que isto foi uma realização magnífica. Então, alguma tecnologia falha e os observadores são observados pelos nativos. A história gira em torno do desejo de alguns nativos de retornarem para a religião de seus antepassados, uma vez que isso explica, de forma simplificada, a existência de observadores alienígenas. Um dos subtemas do episódio tratava de como era fácil pra algumas pessoas atribuir eventos inexplicados à causas sobrenaturais ao invés de pensar criticamente. Picard passa um bom tempo tentando convencer a líder nativa que ele é mortal como ela e não um ser supremo.

Roddenberry: Eu sempre achei que, se não tivéssemos explicações sobrenaturais para todas as coisas que nós podemos não entender de imediato, este seria o jeito que seríamos, como pessoas naquele planeta. Eu nasci em um mundo sobrenatural no qual minha gente – minha família – costumava dizer: “Isso é porque Deus quis”, ou dava outra explicação sobrenatural sobre qualquer coisa que acontecesse. Quando você confronta essas afirmações criticamente, elas não fazem sentido. Elas estão claramente erradas. Você precisa de uma certa quantidade de prova para aceitar qualquer coisa, e as evidências não estavam aparecendo para apoiar aqueles argumentos. Uma coisa importante em minha criação eu devo a meu pai que, misteriosamente, nunca ia à igreja. Consigo lembrar agora as coisas que ele dizia. Ele não achava que a igreja era particularmente o guia que ele teria me incentivado. Ele sentia que era bom pra mim ir à igreja mas ele maldizia cuidadosamente o que os pastores diziam. [Risadas]. Ele estava preso em dois modos de vida…

The Humanist: Qual era a formação do seu pai?

Roddenberry: Ele deixou a escola na terceira série. Mais tarde ele aprendeu sozinho a ler e a escrever. Ele era um homem muito inteligente. Ele aprendeu tanto quanto eu aprendi. Ele encontrava pessoas e se agarrava ao que elas diziam. Meu pai era um homem bem comum que conseguiu seu diploma de ensino médio enquanto trabalhava como policial em Los Angeles. Ele gostava muito daquilo. Eu recebi uma carta que me revelou algo importante sobre ele. Duas senhoras escreveram de Jacksonville, Florida, quando a série original passava na NBC. Elas haviam assistido à Star Trek, viram meu nome e me escreveram que elas podiam ter previsto que eu faria algo como Star Trek porque eu conversei com elas sobre coisas futuristas quando elas me conheceram na minha viagem para a Europa para combater na Primeira Guerra Mundial. Elas achavam que tinham descoberto meu pai e o que ele estava fazendo depois da Grande Guerra. Elas acharam que eu era meu pai. Aquilo me ensinou algo. Elas lembraram dele tantos anos depois e disseram coisas bem legais sobre ele…

The Humanist: Talvez não seja até chegarmos aos quarenta ou cinquenta que podemos realmente admirar nossos pais. Até lá, pra muitos de nós, é tarde demais.

Roddenberry: Sim, tenho inúmeras questões que gostaria de fazer a ele se ele estivesse vivo hoje. Eu tenho uma atitude muito diferente em relação as decisões corretas e erradas dele. Ele muitas vezes disse coisas sobre religião que magoaram minha mãe lá atrás. Mais tarde, ele não a magoava mais porque, conforme ela crescia, ela entendeu que rezar para Jesus não resolve problemas.

The Humanist: Isso afetou seus irmãos?

Roddenberry: Sim, meu irmão e irmã não são religiosos. Na verdade, minha família inteira não é. Você não vê religiosidade na minha família quando está perto deles. Isto, em uma família que 15 anos atrás tinha encontro de orações na casa às terças-feiras. Mamãe começou aquilo quando tinha uns vinte anos e só abandonou isso muitos anos depois. Minha mãe ainda é viva e é uma jogadora de pôquer sagaz, como meu motorista Ernie pode confirmar.

The Humanist: Vejo pôquer aparecer ocasionalmente em ambas as séries original e atual. Acredito que haja um jogo de pôquer semanal na Enterprise na série atual.

Roddenberry: Eu concordo com Somerset Maugham, que considerava o pôquer um teste de inteligência e caráter de uma pessoa…

The Humanist: É curioso que estejamos falando sobre família nesta parte da entrevista, logo após assistirmos ao episódio da Nova Geração “Family”, que é emocionalmente muito forte. A recuperação necessária que o Capitão Picard precisa passar após sua assimilação pelos Borgs e a interação com seu irmão mais velho foi muito bem interpretada. Esta é outra marca de Star Trek – as qualidades humanas de seus personagens.

Roddenberry: Sim. Isso é um elogio. Fazer uma série de ficção científica e ter personagens tão humanos é um grande feito.

The Humanist: Alguns o descrevem como um Jonathan Swift moderno. Poderia explicar?

Roddenberry: Eu sempre gostei de Jonathan Swifit, os lugares aonde ele foi e os personagens que ele inventou. Sempre me pareceu que o tipo de escrita que eu fazia era parecida com a de Swift. Ele usava seus personagens para apontar estupidez no nosso sistema de pensamento. Quando você vê os Liliputianos brigando e pisando nos outros, você está vendo a humanidade sobre a ótica de Swift. Tive certeza desde o começo que o trabalho de Star Trek era usar drama e aventura como uma forma de representar a humanidade em suas várias máscaras e crenças. O resultado foi que Star Trek – na série original mas ainda mais evidente na segunda série – é uma expressão de minhas próprias crenças usando meus personagens para responder problemas humanos e dilemas…

The Humanist: Antes da série original, você considerou deixar a televisão. Se você tivesse saído, o que você teria feito?

Roddenberry: Bem, isso me faz lembrar uma frase que minha avó me disse muitos anos atrás: “Mantenha-se puro, mantenha a cabeça erguida, continue ouvindo e algo aparecerá para você fazer.” Ela me ensinou que um dos truques da vida é manter-se puro. Por isso ela queria dizer manter-se verdadeiro à suas crenças. Sempre existem oportunidades, eu odiaria pensar que, se não tivesse feito Star Trek, eu não teria encontrado outra coisa que significasse tanto pra mim.

The Humanist: Agora que você está fazendo um programa do sindicato ao invés de um show para uma emissora, você tem mais liberdade para dizer o que você quer dizer? Existe mais ou menos censura na televisão agora?

Roddenberry: As áreas censuradas variam conforme o tempo passa. A censura que tínhamos nos primeiros dias era relacionada com cor de pele e beijos e coisas similares. Esse nível de censura que não seria aceitável hoje, porque o público está se tornando mais instruído. Contudo, a coisas realmente sérias que podemos ver censuradas são sobre críticas à indústria militar e propaganda. Você tem que tratar com muito cuidado sobre propaganda porque ela usa a televisão para aguçar apetites e vender produtos. Você tem que ser muito cuidadoso quanto a isso…

The Humanist: Eu li um comentário seu sobre o que a televisão é – um meio gigante para vender produtos.

Roddenberry: Sim. Infelizmente, também para vender ideias – como a que os Estados Unidos são puros e decentes e o resto do mundo, dependendo de sua escuridão relativa, são menos. Existem duas ondas gigantes em andamento; Há a onda de coisas que controlam a televisão para fazer muito dinheiro, mas há também uma onde de inteligência. É dito que nós dobramos nosso conhecimento a cada sete anos. Se você pegar o tempo que este fenômeno tem acontecido, nós quintuplicamos nosso conhecimento desde os primeiros dias da televisão. Nosso conhecimento cresceu enormemente, e o conhecimento do público da televisão, mesmo um público inculto, tem crescido. Há um limite para o quanto de cortina de fumaça você pode lançar. Há um limite para o que o público acreditará e aceitará passivamente….

The Humanist: Você tinha igualdade entre gêneros e etnias com negros, asiáticos e oficiais femininas na ponte. No período temporal no qual a série se passava – o Século XXIII – essas coisas eram consideradas normais e nada demais, mas era bem avançado para a televisão na metade do Século XX.

Rodenberry: Sim. Por exemplo, eu tendo a pensar que no futuro não será estranho de forma alguma que mulheres sejam tratadas como iguais aos homens. Lembro-me quando a NBC me disse, “Quantas mulheres você tem na nave?” Eles achavam que nós certamente não poderíamos ter uma tripulação numa nave que era metade homens e metade mulheres. A NBC comentou que eu deveria considerar a quantidade de sacanagem que aconteceria se a nave fosse dividida igualmente entre os sexos. Nós discutimos e eu finalmente concordei com a NBC que eu faria a nave com um terço de mulheres – pensando comigo, com uma risada, que um terço da tripulação com mulheres saudáveis poderia certamente controlar os homens de qualquer forma. Não parecia estranho para mim usar diferentes etnias na nave. Talvez eu tenha recebido uma educação boa demais nos anos trintas nas escolas que frequentei, porque eu sabia qual proporção de pessoas e etnias a população mundial era constituída. Servi na Força Aérea e viajei por diversos países. Evidentemente, aquelas pessoas controlavam a si mesmas mentalmente como qualquer outra. Acho que devo uma grande parte disso aos meus pais. Eles nunca me ensinaram que uma etnia ou cor era de fato superior. Lembro-me na escola de procurar estudantes chineses e mexicanos simplesmente porque a ideia de diferentes culturas me fascinava. Logo, não sendo ensinado que existia uma hierarquia entre pessoas, uma superioridade de etnia ou cultura, era natural para mim escrever daquela forma.

The Humanist: Havia alguma pressão do canal em você para fazer Star Trek “pessoas brancas no espaço”?

Roddenberry: Sim, havia, mas não uma pressão terrível. Comentários do tipo “Qual é, você certamente não terá negros e brancos trabalhando juntos.” Esse tipo de coisa. Eu dizia que se nós não tivéssemos negros e brancos trabalhando juntos na época em que nossa civilização alcançasse o período temporal no qual a série se passava, não haveria pessoa nenhuma. Acho que meu argumento era tão nevrálgico que calou até os fanáticos. Na série original, minha esposa, Majel Barret, interpretaria a segunda em comando da Enterprise. O canal matou isso. O canal de bronze da época não conseguiria aguentar uma mulher sendo a segunda em comando de uma espaçonave. Naqueles dias, era uma ideia tão monstruosa para muitas pessoas, que percebi que teria que me livrar da personagem ou não conseguiria transmitir meu seriado. Nos anos posteriores me concentrei em realidade e igualdade, e conseguimos transmitir essa mensagem…

The Humanist: O quão diferente é o Gene Roddenberry de hoje comparado com o Gene Roddenberry de vinte, vinte e cinco anos atrás?

Roddenberry: Ele é um homem mais educado(N.T: no sentido de ter aprendido mais coisas). Tem algo importante de educação no que eu faço. Há revistas e livros que eu leio regularmente e um processo educacional que eu espero sinceramente que continue. Gosto de mim agora, que é uma mudança dos meus trinta e cinco e quarenta anos.

The Humanist: A que você atribui essa mudança?

Roddenberry: Acho que é arrancar da minha mente um monte de paixões idiotas, aceitar eu mesmo como sou. Descobri que estou crescendo e espero continuar nesse processo. Não ser tão certo de tudo e ter uma curiosidade aberta é importante também. Eu acho que tenho, por exemplo, uma filosofia política agora, mas não tenho garantia que ela mudará ou, mais corretamente, continuará evoluindo. Não acho que ela mudará bruscamente, mas sou capaz de mudança conforme aprendo mais sobre o mundo e sobre mim mesmo. Houve um tempo que eu era muito difícil de lidar. Na minha juventude, eu tinha definido as coisas que uma pessoa precisaria fazer para ser uma “pessoa adequada”. Isso se tornou um problema pra mim anos depois. Eu descobri que nós não somos pessoas adequadas e que todos somos capazes de errar. De uma vez, eu era muito estrito com meus amigos e companheiros e agora eu trabalho lhes dando a mesma afeição que dou a mim. Eu acho que nos meus anos mais maduros, em algum ponto, devo ter dito pra mim mesmo: “Ei, você não é má pessoa. Sim, você cometeu erros, mas você lutou constantemente para superá-los e repará-los. Eu percebi, Gene, que conforme os anos passam você mudou seus pontos de vista sobre as coisas, as quais eu gosto de ver num ser humano e em um humanista.”. Eu acho que tento continuamente melhorar meu eu sem nenhuma esperança de alcançar a perfeição máxima. É uma jornada maravilhosa.

Texto Original

José Paulo R. de Lima
Paulista de Jundiaí, é empresário da área de TI e professor de colégio técnico da área de informática. Possui graduação em sistemas de informação (EACH-USP) e mestrado em ciências pelo PPgSI (EACH-USP).
Fã de ficção científica, espera que a humanidade alcance os parâmetros sociais apresentados em Star Trek.
Também coleciona quadrinhos e adora viajar com sua esposa.