Bule Voador

O ateu chato

Escultura por Sacha Sosno e Yves Bayard.

O movimento ateísta, de forma descentralizada e despretensiosa, ganhou bastante notoriedade na última década, principalmente, com a popularização da internet e das redes sociais. Isso fez com que muita gente passasse a ter acesso, não só a conteúdos sobre o tema, mas a conhecer pessoas que pensam de forma semelhante. Fóruns em redes sociais, blogs e canais de vídeos se multiplicaram, tornando-se ambientes de debates acalorados, mas nem sempre produtivos, entre ateus, agnósticos e religiosos em geral.

Deste processo, emergiram muitas coisas boas, como comunidades e páginas com conteúdo relevante, além de organizações que lutam pela laicidade, difusão do conhecimento científico, ceticismo e pelos direitos humanos. Mas, assim como Eva pariu Abel, também pariu Caim, do mesmo movimento, nasceu uma figura bastante simplória e negativa ao ateísmo, que aqui chamarei de “o ateu chato”.

O ateu chato é aquele que, como um pregador da Igreja Universal, quer espalhar a verdade sobre o mundo para todos os seres vivos do planeta. Ele acha que tudo relacionado à religião é maléfico, que as pessoas que acreditam em algum ser sobrenatural são burras, idiotas, imbecis e precisam ser ensinadas a pensar corretamente. Com um ímpeto proselitista quase incontrolável, acredita ser o portador da verdade universal, o messias que levará luz às trevas da ignorância religiosa.

Esse tipo de ateu costuma entrar em discussões desnecessárias, parte para agressões gratuitas e usa o conhecimento de forma leviana para ofender e tripudiar dos outros. O ateu chato esbanja autoconfiança e pedantismo, vomita ética e confunde liberdade de expressão com agressão gratuita. Gosta de entrar em sites e comunidades religiosas virtuais para achincalhar e criar desavenças em caixa alta. Em suma, o ateu chato é uma caricatura do indivíduo que não evoluiu socialmente e que acabou se transformando em um fanático religioso de sinal trocado.

Caros amigos, vocês podem me dizer que criei um estereótipo baseado em achismos e preconceitos, mas não acredito que seja esse o caso. Esta constatação é reflexo da observação de casos emblemáticos e também de autocrítica, uma vez que ninguém está livre de cair nessas armadilhas que só a imaturidade pode nos levar.

Acredito que o número de ateus chatos é pequeno em relação ao total, mas acabam tendo mais voz pela gritaria gerada. Nós ateus já sofremos preconceito pela visão deturpada que a maioria tem a nosso respeito. Ser um chato cria um efeito rebote que só contribui para o distanciamento e para a propagação de ideias negativas a nosso respeito.

Talvez isso seja um indício de algo muito mais fundamental, fruto de uma sociedade que quer ser ouvida, mas não se dispõe a fazer o contrário. Por isso, apesar de ter me focado em um caso específico, podemos encontrar exemplos de chatos de vários estilos e retóricas quando o assunto é religião, ciência, política, futebol e até com fanboys de marcas de produtos eletrônicos.

Penso que aprender a ouvir com atenção e a debater respeitosamente é muito mais importante do que ganhar uma discussão e traz muito mais benefícios na construção da índole. Não adianta ter razão, mas não ter respeito ao próximo. Até porque ser ateu ou religioso é somente uma das características, dentre tantas outras, que definem um indivíduo.

Agora, se você é ateu e não conhece pelo menos um exemplo do tipo que descrevi, reflita, pois é possível que você esteja sendo o chato da história.

Imagem: escultura de Sacha Sosno e Yves Bayard.

Diogo Albuquerque
Geofísico de formação e Sismólogo por teimosia (ou por um profundo desejo de morrer na miséria). Mas prefere mesmo é jogar sinuca enquanto debate temas polêmicos.